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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Obras de Freud 2011: Companhia das Letras 3 x Imago 0

Não Bastasse a Goleada em 2011, os boatos são que a Imago tirou seu time de tradutores das Novas Obras de Freud de campo...




Essa postagem chega bem atrasada, pois o assunto ainda é referente do ano passado, mas o assunto é sério e merece ser destacado.

Em 2011 a Companhia das Letras manteve o ritmo de seu cronograma e lançou mais três volumes do seu projeto editorial das obras completas de Freud. A novidade no mercado editorial brasileiro veio em 2010, quando saíram os três primeiros volumes desse projeto, fazendo com que a Companhia das Letras saísse na frente na enxurrada de lançamentos que se seguiria a entrada da obra de Freud em domínio público. Quando houve o lançamento eu fiz um texto neste blog comentando o Duelo de Titãs que se anunciava.

Pois bem, bastou um ano para a situação se definir de um jeito dramático. A tradução de Paulo César Sousa vem se consolidando cada vez mais. Como já havia comentado anteriormente, a edição da Companhia das Letras é um primor de cuidado. Não digo só pelo trabalho do tradutor, que é extremamente competente e conseguiu resgatar toda a riqueza da escrita freudiana, mas pelo projeto gráfico e pela qualidade da impressão e encadernação. Paulo César Souza é um trator competente do alemão que teve o impeto de sustentar uma tradução mais literária do texto freudiano, contra todos os sectarismos e purismos dos jargões e escolas psicanalíticas. Afinal, depois de pelo menos 40 anos de discussões sobre a hermenêutica da psicanálise, o real sentido da letra freudiana e o furacão lacaniano, é preciso muita coragem para afirmar o uso de instinto e repressão como opções mais adequadas para conceitos fundamentais da psicanálise. Tenho me deleitado com cada volume e com o frescor que esse projeto trouxe para a situação das obras de Freud no Brasil.

Esperava, naquela época, que o lançamento da Companhia das Letras viesse reacender o ímpeto da Imago em continuar tocando seu próprio projeto de tradução. Afinal, eram duas propostas completamente distintas de tradução e de projeto editorial, com finalidades distintas. O Projeto de Luiz Hanns era fazer uma Edição de Estudos, tal como existe na própria Alemanha. Era uma organização temática, com extremo rigor na tradução e nos comentários editoriais. Não era um texto para se ler descompromissadamente, era preciso atenção. Afinal, além das copiosas notas de tradução e das notas da Edição Standard Inglesa originais, tinha uma série de novas notas técnicas. As notas eram tão extensas - tem dez por página fácil - que precisaram ser realocadas no final. Foi um trabalho primoroso da equipe de tradução, embora o cuidado da editora não foi o mesmo: impressão de má qualidade, erros tipográficos e erratas. Era um material de grande valia para os estudantes da obra de Freud. Então podemos dizer que eram projetos que viriam se complementar muito bem e ambos eram muito bem-vindos.

Pois bem 2010 se foi, passamos 2011 e a Imago continua completamente silenciosa sobre o destino de seus projetos editoriais de Freud. Outras traduções começaram a aparecer. Saiu a de bolso pela LP&M e agora, em 2012, acabou de sair o primeiro número da tradução de Marilene Carone pela Cosac e Naif. Para quem não sabe a Marilene Carone, tal como o Paulo César Souza o fez depois, traduziu as obras de Freud com o apoio da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Ela foi consultada pela Imago para assumir o projeto de tradução das Obras Completas, mas a coisa nunca decolou. Até foram publicadas algumas traduções avulsas dela na forma de brochura, o que mais confundiu do que ajudou, já que ficamos com esses textos "novos" enxertados no meio dos antigos.

Em suma, os livros da Imago viraram uma babel. Já não bastasse a reimpressão da versão de 1974 em novas diagramações, perdendo a correspondência de páginas, começaram a sair essas brochuras e edições avulsas, com novas traduções ou retraduções, sem uma linha editorial coesa. Algumas traduções ficaram muito boas, por sinal. A de Osmyr Gabbi Jr. do projeto de 1895 é ainda preciosa para mim, por exemplo. Mas aí tinha a de Osmyr, a da Marilene, etc. Agora temos os três números de Luiz Hanns que, pelo que tudo indica, serão os únicos a serem lançados.

Alguns livreiros conhecidos confirmaram o que todo mundo suspeitava: a Imago não só deixou de produzir a Edição Standard Brasileira em capa dura - agora teremos só em brochura mais barata, para venda para estudantes e bibliotecas - como a nova edição não sairá mais. O motivo alegado é que agora já tem várias edições de Freud no mercado e que devemos esperar da Companhia das Letras a responsabilidade pelo lançamento das obras de Freud traduzidas direto do alemão. O que se pode entender disso é que uma vez perdida a exclusividade dos direitos autorais não é mais financeiramente viável manter o projeto de nova tradução. Ora, por que a Companhia das Letras insiste, então? Não seria porque ela entende que a qualidade do seu projeto fará diferença? Por que agora a Cosac e Naif insiste em um projeto próprio? Agora, como que uma editora que teve as obras de Freud nas mãos por mais de 30 anos não conseguiu engatilhar um projeto decente? Como não acredita na sua própria credibilidade?

É triste, muito triste... Tem algo muito errado com o mercado editorial brasileiro, principalmente com o mercado editorial de psicanálise. Eu não sei o que acontece no caso específico da Imago. Só consigo pensar que ela está falindo por pura ingerência e incompetência. É triste que uma editora que foi pioneira na publicação da psicanálise do Brasil chegue a um ocaso desses... O fato é que quem quer que seja o responsável nos deve satisfações.

De qualquer forma, parece que a mudança nesse caso é para o nosso bem. Quem sabe com a saída da Imago de campo esse vácuo não é ocupado de vez por editoras mais competentes, não? Esperemos que sim. Mas a pergunta que não quer calar é: onde andará o Luiz Hanns?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Freud Explica? (2012)

Caros leitores,

Um feliz ano novo para todos nós, com um toque de fantasias apocalípticas, pois a vida pós-moderna pode ser muito entediante...

Estou começando este ano relançando a questão que coloquei ano passado e pedindo a colaboração de vocês: estou buscando traçar a origem da expressão "Freud explica" na língua portuguesa e na cultura brasileira. Ainda não sai do lugar desde o último post... Qualquer colaboração ou indicação é bem vinda!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Intelectuais Maranhenses 1

O retorno do recalcado da história brasileira: a vida pregressa de Freud, Marx e Nietzsche.

Depois de tantos posts mais '"sérios", voltamos com um pouco de humor. Esse e o primeiro post de uma série publicada em uma revista alternativa do Maranhão. O mote é, claro, Freud. Mas os outros dois (Marx e Nietzsche) são muito legais e vamos publicar aqui também. Nossos agradecimentos a Bruno Azevedo (http://bazevedo.blogspot.com/).

domingo, 28 de março de 2010

Duelo de Titãs





























Finalmente uma novidade que irá agitar o mercado editorial da Psicanálise no Brasil: depois de muitas tentativas frustradas, saiu uma nova edição das Obras Completas de Sigmund Freud, traduzida por Paulo César de Souza e publicada pela Companhia das Letras.

Convenhamos, com mais de 30 anos de exclusividade nas mãos, a Imago não fez muito para consolidar sua posição no mercado. A versão brasileira da Standard Edition foi publicada em 1974 e não sofreu nenhuma revisão em todo esse tempo. Só mudaram as capas. A paginação foi ligeiramente alterada na versão de 1996 e lançaram versões em brochura dos textos mais importantes em separado. Por fim, lançaram a versão em brochura dos próprios volumes das obras completas. Mas simplesmente não fizeram absolutamente nada para corrigir as imperfeições e erros de tradução que se tornaram clássicos. É bem verdade que desde idos dos anos 1990 a Imago fez alguns movimentos para tentar lançar uma tradução nova. Alguns resultados isolados puderam ser constatados em alguns dos textos separados que foram lançados, com traduções direto do alemão de alguns autores de renome da área. Mas o projeto editorial completo demorou muito para ser finalmente levado à cabo. Só com a publicação do Dicionário do Alemão de Freud, da autoria de Luiz Hanns, começou a se mobilizar um projeto.

Em 2004 saiu então o primeiro volume da NOVA tradução, agora direto do alemão, das obras completas de Sigmund Freud. O projeto foi baseado na edição de estudos alemã, em um formato temático e com um número bastante grande de notas de tradução e novas notas editoriais, mantendo ainda as notas originais de Freud e as de Strachey (da Standard Edition). Isso gerou um texto bastante carregado, que só se justifica por ser propriamente uma edição de estudos dos textos freudianos. Os primeiros três volumes saíram entre 2004 e 2007, compondo a secção temática Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. A escolha foi interessante, pois privilegiou justamente os textos metapsicológicos mais importantes, que seriam justamente os mais necessários para estabelecer as novas escolhas terminológicas. Mas o impulso original perdeu seu ímpeto e chegamos a 2010 sem nenhum novo volume ser lançado.

Eis então a bem-vinda surpresa. Paulo César de Souza é um velho conhecido no que tange ao trabalho de tradução de Freud. Tinha feito uma excelente tese de doutoramento sobre o vocabulário freudiano que foi publicada como livro (As Palavras de Freud, oportunamente reeditado agora pela Companhia das letras) e tinha feito várias traduções alternativas de textos importantes de Freud que vinham sendo publicados em revistas especializadas. Era uma opção natural para bancar esse projeto da Companhia das Letras. Foram lançados três volumes simultaneamente agora em 2010, referentes aos números 12, 14 e 17. O projeto editorial não será temático, mas cronológico, como a Standard Edition Inglesa. Pretende abordar os mesmos textos "psicológicos" da versão Standard e também incluir as notas originais de Freud e de Strachey, mas tem um número mais restrito de notas novas, que são estritamente de tradução (a versão de Luiz Hanns apresenta notas com comentários teóricos feitas por consultores especializados). O curioso foi o lançamento dos três primeiros volumes fora de ordem, mas também entende-se que contemplam os textos metapsicológicos e teóricos mais fundamentais da obra freudiana.

Há, portanto, muitos textos em comum nos volumes lançados dos dois projetos, o que permite um bom cotejamento das versões. Ainda não me dei esse trabalho, mas posso dizer que qualquer que seja o resultado o fato de agora termos dois projetos editoriais concorrendo entre si só poderá trazer ganhos para os ávidos leitores brasileiros. Além do mais, a Companhia das Letras costuma ter bastante cuidado e zelo com suas publicações, o que certamente fará com que a Imago acorde do seu "sono dogmático" e melhore um pouco o padrão gráfico e editorial de seu material.