sábado, 16 de março de 2013
O Segredo da Auto-Ajuda (Matéria Revista Mythos n. 4)
O Campo da Psicologia e o Segredo da Auto-Ajuda
A literatura de auto-ajuda é uma tendência
crescente na cultura contemporânea que muitas vezes se confunde com as
publicações de divulgação científica do campo das psicologias. Embora a comunidade acadêmica e profissional
tenha razão em criticar a banalização que esse segmento proporciona, o apelo de
tal discurso pode ser explicado pela própria configuração do espaço psicológico
que emerge na modernidade
Érico Bruno
Viana Campos*
Os leitores das revistas semanais de grande circulação e observadores de
estantes em livrarias aprenderam a reconhecer um segmento editorial que cada
vez mais ganha destaque, a chamada “literatura de auto-ajuda”. Nos últimos
anos, vários títulos desse rótulo se tornaram best-sellers, como O Segredo,
Quem Somos nós? e A Cabana,
gerando inclusive versões cinematográficas de relativo sucesso, a tal ponto que
podemos hoje reconhecer uma certa cultura em torno desse termo. Mas o que é a
auto-ajuda, afinal? O que justifica seu encanto no âmbito da sociedade de
consumo contemporânea? Minha hipótese é que a auto-ajuda seja um sintoma da
própria configuração do espaço psicológico que emerge na modernidade ocidental,
constituindo uma espécie de reverso do saber psicológico que toca na própria
alma da condição humana universal.
Caracterização do fenômeno da auto-ajuda
O termo auto-ajuda, se refere a qualquer iniciativa auto-gerida de
indivíduos e/ou grupos de buscar aprimoramento profissional, econômico, físico,
intelectual, emocional ou espiritual. É aplicado de forma bastante
indiscriminada no campo da saúde, da educação e dos negócios, tendo como
principal reflexo um mercado editorial específico, conhecido como literatura de auto-ajuda.
Embora seja um segmento muito diversificado, que vai de recursos de
aprendizagem profissional até a orientação espiritual, a auto-ajuda apresenta
algumas características gerais comuns. Dentre elas está a apresentação de fórmulas
supostamente simples e esquemáticas que proporcionam mudança radical na vida
profissional e pessoal (“Siga os três passos do sucesso!”). Outra
característica recorrente é a presença de afirmações imperativas voltadas para
a atuação concreta do leitor em seu meio com ênfase no pensamento positivo como
fomento à realização e ao sucesso (“Querer é poder!”). Também é geral nestes
livros a alegação de um embasamento desses princípios em um conjunto de
técnicas com suposto respaldo científico e institucional (“Comprovado por
cientistas de Harvard!”). Igualmente recorrente é a caracterização da atividade
do leitor como uma habilidade emocional expressiva e singular (“Siga sua
intuição para encontrar seu lugar no mundo!”) e a presença massiva de recursos
didáticos, ilustrativos e retóricos, dando um tom de casualidade, proximidade e
facilidade para o leitor (“É extremamente fácil. Veja!”).
Essas características dão um tom de apoio e suporte para o leitor, que se
vê amparado de um conjunto de técnicas e estratégias que podem garantir seu
sucesso pessoal e profissional. Portanto, não são livros que fomentam a
reflexão ou o questionamento de si mesmo ou da realidade, mas indicativos de
ação efetiva e imediata sobre o meio circundante da pessoa. Uma característica
interessante é que quase sempre as questões pessoais, emocionais e espirituais estão
articuladas ao sucesso profissional e à possibilidade de visibilidade social e
de consumo. Isso mostra o quanto esse fenômeno está adaptado ao contexto da
sociedade de consumo e às seduções que o modelo econômico vigente imprime à
subjetividade contemporânea. Não é à toa que o grande nicho dessa cultura seja
o meio empresarial e corporativo, por meio dos palestrantes que vendem suas
fórmulas de sucesso aos crédulos consumidores de suporte emocional. Sem dúvida,
é no registro do “mercado” que o fenômeno da auto-ajuda se instaura e floresce.
Breve história do gênero
Curiosamente, o primeiro livro do gênero, entitulado “Auto-Ajuda” (Self Help) foi escrito pelo ativista e
reformador britânico Samuel Smiles (1812-1904) em 1859. Naquele tempo, o auge
da Era do Capital, segundo Eric
Hobsbawn, o capitalismo industrial e financeiro se consolidava no ocidente,
sufocando as revoluções liberais que alçaram a classe burguesa ao poder. O
individualismo liberal e o Estado disciplinar se consolidavam como
organizadores da vida social, desorganizando a vida comunitária e a consciência
de classe, deixando os trabalhadores sem outra alternativa de amparo social que
não ajudarem a si mesmos solitariamente. Essa é a tônica e o intento do livro
de Smiles, uma espécie de manual de
individualismo para uma era de desilusão coletiva. Portanto, podemos dizer que
a literatura de auto-ajuda nasce sob o signo da crise da subjetividade. No
entanto, o gênero só fará sucesso e se tornará um fenômeno a partir da segunda
metade do século XX, no contexto do pós-guerra e da última faceta do
capitalismo: a economia pós-industrial e a sociedade de consumo. Nesse sentido,
o grande best-seller pioneiro do
gênero é “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, de 1937, do empresário americano
Dale Carnegie (1888-1955). Este livro já pode propriamente ser caracterizado
como um manual de auto-ajuda, com todo o apelo mercadológico que a cultura
americana do self made man e do business man pôde imprimir ao gênero. O
fenômeno se instaura nos anos dourados de 1950 e 1960, mas é só com a crise
econômica e a instabilidade política do final dos anos 1970 que o seu apelo
cresce. Foi então em meados dos anos 1980 que o New York Times criou uma
categoria específica de auto-ajuda em suas listas de mais vendidos, selando o
movimento como um gênero literário. Desde então, fomos nos acostumando a
reconhecer três gêneros literários nas listas de vendas de livros: ficção,
não-ficção e auto-ajuda.
Também foi a partir dos anos 1980 que a literatura de auto-ajuda se
instalou no Brasil. De início, ela foi marcada por um certo apelo místico e
alternativo típico dos movimentos hippie
e de contracultura dos anos 1960-1970, com uma marca de espiritualidade típica
de nossas tendências ao sincretismo religioso. A partir dos anos 1990, contudo,
ela passou a se caracterizar mais claramente no ramo dos negócios e do
marketing. O grande marco desse momento foi o Dr. Lair Ribeiro, com seus treinamentos
motivacionais baseados nas técnicas de programação neurolinguística, que são
oferecidos até hoje com o sugestivo título de Poder Mental Transformacional (PMT): “inteligência aplicada à
evolução”. A partir de então já se via a articulação clara entre técnicas de
motivação e marketing na gestão da vida pessoal e profissional que tanto
caracteriza o gênero. Essa tônica prevalece até hoje, de forma que é no mercado
da chamada “cultura organizacional” que o gênero floresce e se sustenta
prioritariamente, por meio de ciclos de palestras e treinamentos empresariais
que geram as publicações que chegam ao público em geral. Por outro lado, convém
ressaltar que devido às características sincréticas da cultura brasileira, esse
gênero acaba se articulando com o de espiritualidade, misticismo e esoterismo.
Em particular, temos no Brasil um filão paralelo da literatura de auto-ajuda
que se desenvolve prioritariamente a partir dos praticantes e simpatizantes da
religião espírita, cujos grandes expoentes são os livros psicografados por
médiuns como o pioneiro Chico Xavier e a mais recente Zíbia Gasparetto. Nessa
vertente, o marketing e a promoção do
sucesso são menos presentes, dando lugar ao fomento do crescimento emocional e
espiritual, mas as linhas gerais do discurso da auto-ajuda permanecem. Além
disso, o grau de sobreposição e mesmo confusão entre os níveis psicológico,
espiritual e empresarial, ou entre perspectivas téorico-metodológicas e mesmo
posições éticas e políticas é tamanho que fica muito difícil caracterizar ou
discriminar exatamente as diferentes vertentes do fenômeno.
De qualquer forma, o fato é que por maior que seja o sucesso que essas
publicações alcançam, a literatura de auto-ajuda é considerada como um certo
“Lado B”, de caráter mercadológico, banalizado e massificado, das teorias e
práticas psicológicas consideradas científicas e acadêmicas, gerando atrito no
campo da reserva dos mercados entre os profissionais “psi” e os autores desse
tipo de literatura com suas práticas. É notável nas prateleiras das livrarias
como o segmento de psicologia se tornou um apêndice do genérico “auto-ajuda/espiritualidade”.
Nota-se, portanto, como a questão não se resume à determinação do que é mais
prestigiado, ou entre o que é de “elites” e o que é para as “massas”, mas à
própria delimitação das identidades profissionais e suas práticas legítimas.
Nesse sentido, a auto-ajuda acaba se configurando como uma problemática de
mercado no campo da distinção entre práticas “psi” e práticas dita
“alternativas”. O exemplo mais recente desse embate é a nova modalidade de
orientação de carreira/vida pessoal chamada de coaching, que muitos psicólogos consideram uma modalidade
disfarçada de psicoterapia que foi desenvolvida especialmente para a prática
profissional de administradores e executivos. Isso sem falar que, por ser algo
que se desenvolve no mundo empresarial, que supostamente garante o sucesso e
que está na moda, o coaching goza de
grande prestígio e status, de forma
que precisa ser mais caro do que os tratamentos e práticas comuns.
Por conta disso é que a auto-ajuda é tomada com bastante desdém pelos
profissionais de psicologia que se consideram “sérios”. É por isso também que
pouco se fala desse fenômeno no campo propriamente psicológico. Ele é um
verdadeiro “resto”, um quase “lixo” das teorias e práticas psicológicas. No
entanto, a coisa não se configura com limites tão precisos como as posições
ideológicas costumam pintar. Há muitos psicólogos “sérios” que se rendem à
mesma lógica da auto-ajuda, sem falar que muitos livros de auto-ajuda acabam
sendo utilizados e divulgados por psicólogos em suas práticas. Isso sem falar
na imensa diversidade de práticas, perspectivas e modelos que se configuram e
articulam de forma incontrolável nesse amplo campo em que incidem as lógicas do
trabalho, da educação e da saúde. O que nós temos não é uma situação bipolar
entre “ciência e verdade” versus “mercado e propaganda”, como muitos nos levam
a crer. Na verdade, o crescimento dessa diversidade espelha muito bem as
tendências pós-modernas de fragmentação, relativização e “bricolagem” de
discursos e práticas sociais.
Em outras palavras, podemos dizer que a auto-ajuda não é um erro ou
acidente de percurso, mas uma expressão legítima da subjetividade na
atualidade. Da psicanálise aprendemos que tudo o que é sintomático é índice de
uma verdade que a consciência desconhece, mas que, no fundo a organiza.
Portanto, minha hipótese é que essa situação de escalada da auto-ajuda não é
circunstancial; pelo contrário, constitui um verdadeiro sintoma da configuração
do campo psicológico tal como se deu na modernidade.
O espaço psicológico: território da
ignorância
A história do campo nos mostra que o projeto da psicologia científica é
fruto de uma determinada configuração sócio-histórica e político-econômica dos
desdobramentos da modernidade ocidental, naquilo que Luis Cláudio Figueiredo
(inspirado em Foucault) chamou de emergência e queda do sujeito/indivíduo
moderno na produção dos saberes sobre a subjetividade. Essa configuração foi
responsável pela criação de um espaço de saber "psicológico", marcado
pela contradição e ambiguidade nas perspectivas éticas e epistemológicas a
respeito do homem e de sua subjetividade. A ideia, como expliquei melhor em
artigo anterior publicado nesta mesma revista (Cf. a matéria “A diversidade que
nos une”) é que somente com a crise da concepção de sujeito e indivíduo moderno
pôde surgir o projeto de uma psicologia científica. Esse espaço de dispersão
foi a matriz geradora de todos os projetos das chamadas "psicologias"
modernas e é marcado pela tensão entre três pólos de posicionamento ético com
relação ao ser humano: o romântico, o iluminista e o disciplinar. O pólo
iluminista concebe o homem como uma produção da razão e da vontade, dentro de
uma perspectiva liberalista e individualista de sociedade. O pólo romântico
concebe o homem como um potência expressiva e criativa que reencontra a unidade
e a identidade das tradições (Natureza, Nação, Povo, Verdade, Deus...) por meio
de uma comunhão afetiva. O pólo disciplinar, por sua vez, concebe o homem como
objeto de um mecanismo de controle tecnocrático e burocrático no sentido da
manutenção de uma pretensa ordem social racional e pública. Segundo essa
perspectiva de Figueiredo, expressa em alguns de seus livros ("Matrizes do
pensamento psicológico" e "A invenção do psicológico: quatro séculos
de subjetivação"), as diversas concepções epistemológicas e as diversas
teorias psicológicas desenvolvem-se a partir de alianças e oposições a estas
perspectivas éticas.
Isso quer dizer que as diversas psicologias nascem com a missão de lidar
com o “resto” e com o “lixo” produzido pelas ordens institucionais modernas que
se configuram no âmbito da família, da saúde, da educação e do trabalho. Cabe
aos “psi” desenvolverem uma prática de controle e ação sustentada em um saber
científico sobre as crianças mal-criadas e mal-educadas, os empregados
mal-treinados e mal-selecionados, os doentes mentais mal-adaptados e assim por
diante. Na sua tarefa de “reciclagem” e “tratamento” desse resíduo, os “psi” se
apoiam em suas matrizes epistemológicas e posicionamentos éticos, que são
múltiplos, diversos e contraditórios, criando assim um espaço de dispersão sem
qualquer perspectiva de unificação.
Falei bastante disso no meu artigo anterior, a quem remeto o leitor
interessado. O que eu trago de novo agora é chamar a atenção para o fato de que
Luis Cláudio Figueiredo chama o espaço psicológico de território da ignorância. Isso porque o grau zero do espaço
psicológico, ou seja, o ponto central de intersecção das bissetrizes dos seus
vértices é nulo. Em outras palavras, o lugar de equidistância entre os
discursos psicológicos, aquele em que todas as tensões incidem é, na verdade,
um vazio. Isso quer dizer que a tentativa de produzir um discurso homogêneo
sobre a subjetividade humana redunda em uma caracterização tão geral e
inespecífica que se torna inócua e banal. É como se na tentativa de dar conta
de todas as diferenças, acabássemos por ficar apenas com aquilo que é mais
universal. Da mesma forma, entende-se que a riqueza dos saberes psicológicos
está justamente na manutenção dessa tensão e dessa diversidade de perspectivas
e posições, o que faz de qualquer empreitada psicológica, necessariamente, uma indisciplina crítica. Todas as grandes
teorias psicológicas são importantes porque vão a fundo na exploração das
possibilidades e limites de certa concepção do que seja o psiquismo humano. Sua
força está justamente nessa especificidade e é o debate entre essas
perspectivas antagônicas que mantém o espaço psicológico vivo e dinâmico.
Uma boa metáfora para caracterizar o espaço psicológico é a de um sistema
atmosférico na forma de ciclone. Como se sabe, os grandes sistemas de
tempestade têm essa forma característica de um redemoinho, daí a sua
precipitação na forma de furacões e tornados. A força centrífuga do redemoinho
gera ondas de choque intensas, que devastam tudo a sua volta. No entanto, o
centro do sistema é estável e plácido, formando o chamado “olho” do furacão.
Assim, no olho do furacão não há conflito de forças antagônicas, apenas a
calmaria e a inércia do centro a qual todo o resto está referido. É uma imagem
poderosa e que se apresenta na própria configuração da matéria no nosso
universo, já que toda galáxia se organiza em configurações cíclicas por conta
da força de um grande buraco negro que a mantém unida. No centro do caos, há o
nirvana. Toda luz circula um poço de escuridão, assim como todo saber
circunscreve uma ignorância fundamental sobre o humano.
A questão é que quanto mais os saberes psicológicos tentam dar conta de
todos os pólos do espaço psicológico, mais eles adotam posturas ecléticas ou
sintéticas que tendem a empobrecer a riqueza do "psicológico". Esse
discurso de pretensa conciliação e eliminação das diferenças é encontrado nos
mais diversos níveis da produção de discursos sobre o espaço psicológico, desde
o senso comum da psicologia até a mais descarada literatura
"marqueteira" de auto-ajuda. Não é à toa que o ponto de
conjunção dos três pólos do psicológico - o centro geométrico deste espaço
- é o lugar da total ignorância e imobilidade. Seria como o olho de um furacão
- lugar de total inércia - ou o horizonte de eventos de um buraco
negro - local de plena invisibilidade. Isso quer dizer o seguinte: qualquer
perspectiva totalizadora na psicologia tende a se tornar completamente
inerte e, ainda por cima, converter-se em pura ideologia.
Pois bem, o que tudo isso nos diz sobre o fenômeno da auto-ajuda? Como
vimos, esse tipo de literatura se mantém pela reprodução desses chavões; do
enunciado de pretensas verdades absolutas por meio de expedientes simples; de
fórmulas mágicas que tudo resolvem imediatamente. Sem falar na falta de
critérios e de sustentação, na mistura desatinada de apelos afetivos, índoles
místicas, raciocínios pragmáticos e pretensas "técnicas" na
explicação do sofrimento humano e em sua cura. O que eu gostaria de contribuir
para essa discussão é na interpretação da estrutura
desse discurso, que é, justamente, o que faz com que a auto-ajuda, como um simulacro,
ocupe o centro do espaço psicológico, convertendo-se em ideologia que encobre
sua própria ignorância.
A fórmula da auto-ajuda
O segredo é: existe uma verdade! Ela pode ser encontrada por qualquer um
de nós, basta ter a atitude certa; basta querer e fazer a escolha certa. Essa
verdade é garantida pela ciência e por todas as autoridades de legitimação de
saber da cultura; é um caminho certo e garantido, basta dar o primeiro passo.
Esse caminho depende de uma atitude afetiva, emocional e expressiva, pois não é
um conhecimento racional, mas intuitivo, do mundo; é preciso, então, estar em
sintonia com essa atitude do universo. Embora seja da ordem da intuitividade e
da espontaneidade, existe uma "técnica" que pode ser ensinada, que é
legitimada pela "ciência" e pelo "saber". Em suma:
"Querer é poder. Basta tomar a atitude certa de sintonia com a verdade. A
ciência garante!"
Ora, não é isso o mais perfeito exemplo da aliança entre os pólos liberal,
romântico e disciplinar que configuram o espaço psicológico? Do pólo liberal
temos a manutenção da ilusão de uma soberania do sujeito que é dono de sua
razão, de sua vontade e de sua vida e, portanto, de seu destino. Esse é o maior
apelo da auto-ajuda, inclusive: a ilusão narcísica que mesmo na maior crise de
identidade eu possa sozinho resolver os problemas e me bastar. É a ilusão de
que ainda sou sujeito ativo da minha vida. Mas essa vontade individual de nada
adianta senão for respaldada por uma racionalidade instrumental impessoal e
disciplinadora como o discurso da competência científica. Por isso, por mais
que dependa da vontade do indivíduo, há a necessidade de um saber que garanta a
verdade e ao qual se deve submeter em troca de amparo. Esse é o segundo vértice, propriamente
disciplinar, de submissão a um regime totalitário de controles impessoais e
massificantes. Seu apelo também é forte, pois dá sentido de coletividade e de
identidade em troca de uma servidão voluntária. Mas há ainda outro vértice, que
é o da expressividade emocional propriamente romântica. Essa verdade não é uma
da ordem de uma racionalidade universal, mas algo da ordem de uma potência
criativa e singular. Há algo propriamente místico no sentido de uma comunhão
com a totalidade que é fruto de uma jornada muito pessoal do sujeito. Então há
também algo da ordem de uma passividade e de um caminho rumo a uma totalidade
misteriosa que é mais afetiva do que a frieza calculista dos dispositivos
disciplinares. Percebam que por mais que possam se articular, esses três pólos
são antagônicos entre si, pois afirmam um homem que é simultaneamente ativo e
passivo, autônomo e submisso, racional e afetivo, individual e coletivo, ou
seja, todas as contradições que permeiam a subjetividade ao longo da história
de nossa espécie. O problema é que os discursos de auto-ajuda tentam justamente
formar uma totalidade homogênea nessa dinâmica de opostos e, com isso, se
tornam perigosamente ideológicos e, por isso mesmo, extremamente sedutores.
Assim, podemos dizer que a literatura de auto-ajuda é nada mais que um
simulacro da crise da constituição subjetiva da modernidade do qual todos nós
somos herdeiros, inclusive a psicologia. Portanto, as psicologias e os
discursos de auto-ajuda referem-se a um mesmo contexto sócio-histórico de
origem, com a diferença que os segundos são uma versão mais homogênea e
ideológica dos primeiros. Mas isso não quer dizer que as psicologias não sofram
dos mesmos problemas que são explicitamente evidenciados nos discursos da
auto-ajuda, pelo contrário, o que se observa cada vez mais é uma dissolução
dessas fronteiras, na medida em que a sociedade pós-moderna do consumo, da
informação e da performance avança. Mas por mais que avance, esse afã humano
pela verdadeira e última verdade acaba sempre frustrado. Esse é o verdadeiro
segredo da fórmula da auto-ajuda: é preciso manter o mistério e a ilusão a um
palmo de distância, sempre a um triz de se esvanecer ou de se perder, como tudo
o que é mágico.
Diferentemente do que havia auge da tecnocracia e da razão instrumental
modernas, o mundo pós-moderno é marcado por uma busca pelo encanto perdido. Não
é à toa que a literatura de fantasia está se renovando, assim como as
paranoicas teorias da conspiração, sempre em busca de uma outra ordem simbólica
por trás da realidade compartilhada do senso comum. É claro que aqui estamos
falando do fenômeno dos livros de Dan Brown e seu paradigmático Código da Vinci, sobre a sociedade
secreta que guarda o segredo da descendência de Jesus Cristo e de Maria
Madalena, que alçou o gênero ao posto de ícone da cultura pop. Mas a demanda
pelo reencantamento do mundo é um pouco anterior, coincidindo, inclusive, com o
boom da auto-ajuda nos anos 1980. Foi
nessa primeira leva de misticismo ilustrado e disciplinado que Umberto Eco, o
famoso semiólogo italiano, escreveu o livro O
Pêndulo de Foucault. Podemos dizer que os livros de Dan Brown e congêneres
são uma versão fast-food da temática
que é trabalhada de forma densa e extensa por Eco nas mais de 600 páginas de
seu livro. Embora tenha um enredo muito mais complexo e uma perspectiva menos
maniqueísta e mais irônica da questão, a temática é a mesma: os intricados
meandros de um segredo guardado por gerações no seio de sociedades e seitas
secretas; um segredo que pode desestabilizar toda a ordem vigente de poder nas
instituições da cultura e na própria identidade do homem. Estão lá os maçons,
os templários, a riqueza simbólica das cidades europeias e a inesgotável
capacidade humana de buscar o sentido por trás de todo e qualquer acaso. O
autor explora divinamente essa angústia existencial que acompanha toda a
atividade hermenêutico-simbólica do homem que, no livro de Brown, é mera
coadjuvante de um thriller de ação!
Bem, não vou estragar a surpresa contando toda a história, apenas a sua
moral...
A moral da história é que o segredo é: manter o segredo!
Sim, incrédulo leitor, o segredo nada mais é acreditar que há um segredo.
É a crença e a fé de que o mundo se estrutura em torno de um sentido que nos
move! O homem é um ser simbólico, habitado pela linguagem. Chegamos assim em
uma segunda hipótese sobre o apelo da auto-ajuda: é um discurso que fomenta,
instiga e mantém nossa ilusão constitutiva no mistério e no segredo. A
auto-ajuda, em última instância, reassegura nossa crença de que há sentidos e
que esse é o sentido da vida humana.
Somente mais contemporaneamente os filósofos e acadêmicos passaram a
reconhecer que nossas culturas e nossas vidas nada mais são do que
"instalações" do humano: moradas de símbolos que construímos em torno
de nosso acaso constitutivo. Heidegger foi um dos pioneiros na chamada virada
linguística e pragmática na filosofia, quando a moderna concepção de sujeito
consciente e racional foi substituída por uma concepção menos autônoma e
positiva do que seja a subjetividade humana. Em sua ontologia existencial, ele
parte da concepção do ser (Dasein)
como uma abertura e disposição para a significação, entendendo que a linguagem
é o meio universal e constitutivo da experiência humana. Nessa perspectiva, o
ser é fundamentalmente uma negatividade, aquilo que sempre transcende às
possibilidades de nomeação e significação. Um herdeiro importante do pensamento
de Heidegger é Lacan, que articulou a problemática da subjetividade a outro
grande expoente das ciências da linguagem, o estruturalismo linguístico. Nessa
perspectiva, temos uma inversão nos papéis tradicionais acerca do pensamento.
Para o estruturalismo, a linguagem é que constitui o pensamento e as
identidades. É o sentido da linguagem que recorta o mundo e nós nos
constituímos passivamente por meio dessas operações simbólicas. Mais do que
isso, o estruturalismo vai definir que o sentido da linguagem é um produto da
diferença e que a significação não está nas coisas em si, mas nas relações que
os significantes ou palavras estabelecem entre si a partir da estrutura
simbólica universal. Essas transformações serão essenciais para uma
ressignificação da própria concepção de sujeito na psicanálise. Lacan mostrará
como o que é específico da condição humana é da ordem do desejo e a estrutura
do desejo remete a nossa capacidade simbólica. Em suma, a concepção de que o
desejo humano não tem um objeto específico, que ele é variável e fugaz, se alimentando
de sua própria efemeridade. Toda a força do desejo é que ele nunca se realiza,
pois quando se tem o que se deseja, subitamente aquilo perde a graça e o
encanto passa a estar logo mais adiante. Portanto, o desejo não tem essência,
não tem verdade última, não tem fim. A essência do desejo é o seu acaso e,
portanto, ele é uma negatividade fundamental de onde podem brotar todos os
nossos impulsos.
No final de sua obra, Lacan chamou de objeto
a essa coisa fundamental que habita o humano como uma pulsação sem nome, como
um furo em torno do qual gravita toda a subjetividade, tal qual a matéria envolve
o buraco negro no centro da galáxia ou a tempestade circunda o olho do furacão.
Estamos pois, de volta ao centro do espaço psicológico e ao território da ignorância.
Por isso o discurso da auto-ajuda é tão poderoso, pois ele aponta, sem revelar
para essa origem da condição humana e, com isso, traz amparo no desamparo. Mas
existem tantas outras coisas podem igualmente permitir a elaboração desse
desamparo: as religiões, a arte, o trabalho, o amor, a psicoterapia, etc.
A trágica condição humana
Depois desse percurso fica mais claro como a fórmula da auto-ajuda pode
ser tão eficaz e verdadeira, uma vez que o segredo está em tocar a essência
negativa da trágica condição existencial humana. Tentei argumentar que o
discurso da auto-ajuda é uma espécie de reverso da lógica constitutiva do
espaço psicológico da modernidade e, portanto, é um discurso legítimo e
pertinente a nossa situação contemporânea, embora se preste muito mais ao
alento da angústia do desamparo existencial e a saídas conformistas e passivas
para o sofrimento. Portanto, nós, pós-modernos, temos muito a aprender com a
crítica e interpretação dos discursos de auto-ajuda, na medida em que são
sintomáticos de nossa subjetivação contemporânea. Contudo, o que faz desse
gênero literário uma espécie de tentação é o seu apelo ao mais essencial de
nossa condição humana, que é nossa capacidade simbólica universal.
Talvez por conta disso Lacan tenha remetido sua discussão sobre o símbolo
às nossas origens culturais: a civilização grega. Ele foi buscar nos diálogos
de Platão uma ilustração de nosso desejo. No seu Seminário 8, sobre a transferência, Lacan analisa O banquete, de Platão, buscando elucidar
a origem do vínculo de desejo humano. Trata-se de um diálogo sobre o amor, onde
Sócrates é cortejado por diferentes personagens masculinos. Toda a questão gira
em torno do que é a essência do amor e ela converge para a ilustração de que o
amor de Sócrates é como um ágalma.
Ágalma é um objeto na forma de ornamento ou enfeite que guarda uma jóia ou
presente. Era utilizado como oferenda aos deuses na Grécia Antiga e seu
significado remete a essa distância que se coloca entre o verdadeiro objeto e
aquilo que se apresenta. Na trama do
diálogo de Platão, a interpretação Lacan acaba construindo é a de que esses
objetos representam aquilo que guarda um segredo que produz submissão às ordens
daquele que os possui, de forma tal que o véu que esconde a essência é o
verdadeiro encanto, sendo o objeto derradeiro descartável. Uma boa metáfora
para a noção de ágalma é compará-lo àquelas bonequinhas artesanais da cultura
russa, as matrioskas: uma série de
bonecas que se encaixam umas dentro das outras. Pois bem, o efeito do ágalma é o
que abrir essas bonecas proporciona, são camadas e camadas até se encontrar o nada.
Não há objeto último, a casca é a própria coisa!
Portanto, esse é o segredo da real e trágica condição humana que se
expressa, de forma massificada, pausterizada e comercializada na literatura de
auto-ajuda. Em tempo: o referido "Pêndulo" foi desenvolvido pelo
físico auto-didata francês "Leon Foucault" na metade do século XIX e
constituiu o primeiro experimento científico a comprovar a hipótese de que a
terra gira em torno do seu eixo. Linda metáfora para ilustrar nosso
constitutivo devir simbólico, não?
Bibliografia
FIGUEIREDO, L.
C. A invenção do psicológico: quatro
séculos de subjetivação. São Paulo: Escuta/Educ, 1992.
FIGUEIREDO, L.
C. Escutar, recordar, dizer: encontros
heideggerianos com a clínica psicanalítica. São Paulo: Escuta/EDUC, 1994.
HEIDEGGER,
Martin. Ser e Tempo. 15. ed.
Petrópolis: Vozes, 2005
LACAN, J. O Seminário, livro 8 - A transferência (1960- 1961). Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
PLATÃO. O Banquete. 5. ed. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1991.
ECO, Umberto. O Pêndulo de Foucault. Rio de Janeiro: Record, 1989.
* Érico Bruno
Viana Campos é psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pelo Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo. É professor assistente doutor do
departamento de psicologia da UNESP Bauru. Site pessoal: https://sites.google.com/site/ebcamposonline/.
Blog: http://interpretacoesdacultura.blogspot.com.br/
domingo, 3 de março de 2013
A Diversidade da Psicologia (Matéria Revista Psicologia - Editora Mythos)
A Diversidade que Nos Une *
A pluralidade de perspectivas dentro da
psicologia não é um acidente, mas o reflexo da própria natureza dos saberes e
práticas psicológicas. Compreender essa diversidade é fundamental para a
formação e atuação do profissional da área.
Por Érico Bruno Viana Campos
Tributária em sua origem de dois projetos substancialmente opostos –
enquanto ciência natural e enquanto ciência social –, a psicologia como campo
de saberes e práticas se constituiu e se desenvolveu caracteristicamente a
partir da pluralidade de perspectivas, muitas vezes inconciliáveis. Aos olhos
do senso comum, a multiplicidade de abordagens científicas costuma sugerir
imaturidade, falta de rigor ou mesmo a falsidade do seu conhecimento e de seus
métodos. Mas o campo da psicologia revela justamente o limite desse tipo de
olhar, mostrando que os fenômenos humanos são de outra ordem de complexidade,
em que a diferença (e não a identidade) é a tônica.
Duas versões da história
A psicologia é um campo de saber relativamente recente. É fruto
derradeiro do movimento de constituição das ciências humanas e sociais ao longo
do século XIX na cultura ocidental moderna, trazendo a marca das contradições e
da crise dessa concepção de homem.
Em uma perspectiva mais tradicional da história da psicologia, que ainda
é base para o senso comum, se caracteriza a psicologia (e também a psiquiatria)
como um triunfo iluminista e científico sobre as trevas das crendices populares
e especulações filosóficas. Seria algo como a aurora de um novo tempo em que a
aplicação rigorosa do método científico garantiria o conhecimento da verdade e
indicaria estratégias e técnicas de intervenção sobre os fenômenos psíquicos e
relacionais humanos. Nessa perspectiva positivista e progressista ingênua, a
diversidade do campo psicológico seria um acidente de percurso, uma anomalia
temporária que tenderia a ser eliminada na medida em que o crivo da aplicação
do método científico pudesse constituir uma teoria universal e unificada dos
fenômenos psicológicos.
Contudo, essa versão da história não condiz com os fatos. Desde seu
nascimento, o campo psicológico é marcado por iniciativas contraditórias e
opositivas. Assim, os projetos de psicologia enquanto ciência natural - os
estudos sobre senso-percepção, memória e aprendizagem que marcam o início da
psicologia moderna – foram simultaneamente acompanhados de movimentos de
contestação desses projetos e instauração de outras perspectivas de psicologia
não alinhadas com essa concepção de ciência objetiva e natural. Portanto, o
início da psicologia traz não só os estudos experimentais e as avaliações
psicológicas - os famosos testes psicológicos - mas também estudos que
priorizam outra abordagem do fenômeno psicológico; uma concepção em que este é
fundamentalmente de natureza subjetiva e da ordem da significação e da cultura,
ou seja, os fenômenos psicológicos são fundamentalmente simbólicos e
históricos, não podendo ser objetivados e explicados, mas sim interpretados e
compreendidos.
Nada mais paradigmático dessa contradição intrínseca do que a posição
daquele que é considerado o primeiro psicólogo – Wilhelm Wundt. Formado na
tradição experimental da fisiologia, ele foi responsável pela montagem do
primeiro laboratório de psicologia experimental na universidade de Leipzig, em
1879. Mas o que pouca gente lembra é que além dessa abordagem experimental dos
fenômenos elementares da consciência, que formará a base da primeira escola da
psicologia (o estruturalismo), o autor também preconizava que os fenômenos
psicológicos complexos – interações sociais, ideais culturais, etc. – deveriam
ser abordados por meio de um método histórico-compreensivo mais próprio das
ciências humanas, que ele chamou de “Psicologia dos Povos”.
Bem, mas essa discussão que incide no campo da psicologia nascente é
clássica na origem de todas as ciências humanas. De qualquer forma, podemos
reconhecer que o campo psicológico surgiu marcado por uma cisão clara: de um
lado os projetos de ciência natural e do outro os de ciência humana. Essa cisão
nos acompanha até hoje e um aspecto ilustrativo disso é a eterna discussão sobre se os cursos de
psicologia devem ser classificados na área de ciências naturais ou na humanas.
Essa contradição foi muito bem capturada por um historiador brasileiro da
psicologia, Hilton Japiassu, ao afirmar que a psicologia é marcada por um
paradoxo, pois se ela se esforça demais para ser ciência, ela perde seu objeto
e se ela tenta resguardar em demasia a singularidade de seu objeto, ela deixa
de ser ciência.
Entretanto isso não é tudo, pois podemos ficar com a impressão que a
psicologia teria apenas dois modelos de ciência a seguir. Na verdade, o que se
entende mais claramente hoje é que a psicologia é expressão dessa própria crise
da subjetividade. Por isso os autores que seguem essa perspectiva mais crítica
da história da psicologia entendem que o espaço de saberes e práticas
psicológicas é um espaço de dispersão sem perspectiva de unificação, ou seja,
uma constelação ou arquipélago de modelos teórico-metodológicos e de
configurações práticas que não são passíveis de solução, pois guardam
contradições entre si. São contraditórios porque defendem posições
completamente diferentes com relação ao que é o fenômeno psicológico humano e,
por conseguinte, ao que devemos priorizar como ideal na construção do que é o
ser humano. Isso faz sentido porque cada vez mais os filósofos e epistemólogos
da ciência estão convencidos que o objeto do conhecimento não é objetivo e
concreto, mas construído socialmente. Portanto, o homem, a natureza e o conhecimento
não estão dados de antemão; eles não existem por si mesmos, são construções
sócio-culturais.
Isso quer dizer que em uma perspectiva mais recente sobre a história da
psicologia, não há mais a ilusão essencialista sobre o fenômeno psicológico, ou
seja, que ele exista naturalmente, como uma coisa independente, com leis
universais e intemporais. Por isso, aquela primeira visão da história da
psicologia é ilusória e parcial. Dependendo da posição que ocupam no campo das
teorias e práticas, os críticos poderão chamá-la de ingênua ou mesmo de
ideológica ou perversa.
A partir disso, seria mais correto falar de “psicologias”, no plural, ou
ainda de um campo ou espaço psicológico, onde reinam diferentes teorias e
práticas que tem um contexto comum sócio-cultural e histórico comum. Isso quer
dizer que todos eles, por mais diferentes que sejam em termos metodológicos,
epistemológicos e mesmo éticos, se configuram a partir de um mesmo conjunto de
circunstâncias, para dar conta, de formas diferentes, de certa problemática ou
questão que se circunscreve no final do século XIX. Mas que problemática é
esta?
Um contexto comum
A problemática é a seguinte: os diferentes projetos de psicologia surgem
como uma forma de responder à crise da subjetividade moderna. Todos eles são
fruto da crise da concepção propriamente moderna de homem, aquela que afirma
que o homem é sujeito de sua história; dotado de razão, vontade e liberdade;
soberano de seu corpo e de sua individualidade; cujo domínio mais significativo
é sua intimidade privada de emoções e pensamentos. Pode parecer óbvio para o
leitor tudo isto, mas só porque ainda nos vemos assim a ponto de não colocar
esses pressupostos culturais em questão. Mas o fato é que a demanda por uma
ciência psicológica só pode surgir quando começaram a aparecer as primeiras
fraturas nessa concepção de uma vontade e consciência soberanas como fundamento
racional do homem. Só quando a ideologia iluminista e as utopias sociais
modernas (a revolução burguesa em suas facetas econômica e política, ou seja, a
constituição dos estados nacionais, a revolução industrial e as revoluções
democráticas) se mostraram ilusórias, é que surge a demanda por um saber
propriamente psicológico. Portanto, as ciências psicológicas surgiram como uma
tentativa de desenvolver um conhecimento a respeito do sujeito moderno que
pudesse intervir sobre a crise dessa concepção de subjetividade e de
individualidade. Utilizaram para isso as ferramentas metodológicas e
epistemológicas de uma grande instituição cultural que é especificamente
moderna: a ciência. Então, diferentes psicologias surgem para tentar dar conta
da crise do humano, tentando restaurar e instituir certa concepção de homem por
meio de seus paradigmas teóricos e técnicos.
É assim que surgem os projetos de psicologia como ciência natural e como
ciência humana, marcados por grandes polaridades ideológicas próprias do
contexto sócio-cultural da modernidade: o liberalismo, o individualismo, o
romantismo, os controles disciplinares, etc. Esse é, inclusive, outro ponto que
merece destaque. O contexto sócio-histórico de crise da subjetividade moderna
foi marcado por algumas ideias a respeito do homem que se configuraram ao longo
dos grandes movimentos culturais que marcaram a civilização ocidental entre os
séculos XV e XIX: o renascimento, o iluminismo e o romantismo, além das várias
facetas dos chamados regimes disciplinares, tais como o utilitarismo, a
tecnocracia, a razão instrumental, etc. Esses movimentos marcaram posições
acerca do que deveria ser valorizado e promovido no ser humano como sua
característica distintiva, configurando propriamente um conjunto de éticas que
passaram a fundamentar os projetos das psicologias nascentes. Isso quer dizer
que além de uma vinculação com um projeto de ciência e de conhecimento, as
psicologias também são marcadas por diferentes concepções éticas sobre o que é
a subjetividade humana.
Portanto, a diversidade das psicologias não se refere somente ao âmbito
do conhecimento, mas também aos interesses éticos e políticos que estão
atrelados a esse conhecimento. Essa perspectiva está mais próxima das
discussões contemporâneas na filosofia da ciência que reconhecem que as teorias
científicas não são neutras, como ainda se acredita no senso comum, pois fomentam
e justificam certas concepções sobre o que é o humano e, portanto, refletem
sobre as próprias práticas sociais. Isso faz com que a questão da verdade não
seja suficiente para uma discussão sobre o valor das teorias e práticas
psicológicas. A discussão precisa se dar também no âmbito de que posições
éticas e políticas essas teorias sustentam. Nesse sentido, a esperança de uma
unificação de teorias e práticas ou, pelo menos, de uma orientação comum do
campo psicológico se desfaz completamente.
Essa tese foi claramente exposta, trabalhada e divulgada por um dos
maiores autores de história da psicologia no Brasil, Luis Cláudio Figueiredo, e
vem no esteio da historiografia crítica contemporânea, que tem influências
pós-estruturalistas e marxistas. Não vem ao caso entrar em detalhes, mas é
preciso reconhecer que autores como ele mudaram a forma de se pensar a história
da psicologia no Brasil a partir do final dos anos 1980, descolando-se de vez
daquela tradição norte-americana ultrapassada que costuma entender que a
Psicologia Moderna é sinônimo dos projetos de psicologia científica.
Isso tudo quer dizer que hoje se entende mais claramente que a
"psicologia" não foi fruto de um progresso inevitável da ciência
moderna, mas ela é um campo constituído ao longo de um processo sócio-cultural
e histórico bastante singular. Nesse sentido, o psicológico, quer seja como
experiência subjetiva, quer seja como campo de conhecimento científico, foi uma
invenção moderna. Invenção esta, por sua vez, que configura um espaço de
teorias e práticas completamente heterogêneo. Tão heterogêneo que não contempla
somente o que se convencionou chamar de "Psicologia(s)", mas também
outras teorias e práticas que são mais ou menos reconhecidas como campos de
conhecimento, práticas e mesmo profissões. Assim, quando falamos que o espaço
psicológico emerge na crise da modernidade, queremos dizer que nele emergem não
só as diferentes psicologias, mas também a psiquiatria e a psicanálise, sem
falar em outras práticas e doutrinas menos reconhecidas como, por exemplo,
muitas das chamadas "terapias alternativas" e das
"auto-ajudas".
No limite, portanto, podemos dizer que a "Psicologia" não
existe, que não é uma identidade unitária. Ela é antes um espaço contraditório
que se circunscreve nas fronteiras entre diversas posições quanto ao fenômeno
humano e também na interface com outros campos de saber.
Consequências para a Formação
Ao longo desse texto pudemos
apresentar as questões concernentes à história da psicologia que fazem desse
campo um espaço de dispersão de conhecimentos e de posições éticas sem
perspectivas de unificação. Conhecer essa história é fundamental para a
formação do psicólogo não só porque permite ao profissional conhecer a
diversidade desse campo, mas tirar dela uma grande lição: o reconhecimento de
que nenhum saber ou prática psicológica pode se asseverar uma posição de
verdade absoluta, ou seja, que dê conta de toda a complexidade dos fenômenos
psicológicos. Mais do que isso, precisa reconhecer que toda teoria ganha sua identidade
a partir da exclusão de certas dimensões do campo psicológico e que há sempre
algo da ordem de um inconsciente no horizonte de todas as psicologias.
Isso quer dizer que o profissional
de psicologia precisa lidar com a condição permanentemente em crise de seu
saber e de seus instrumentos. Essa não é uma tarefa fácil, trazendo muita
angústia ao profissional em formação por não ter garantias de certeza em
relação a suas escolhas teóricas e técnicas. Há duas formas clássicas de lidar
com essa angústia, que levam a duas posturas profissionais distintas no campo
da psicologia. A primeira é a postura dogmática,
em que o profissional se aferra de forma doutrinária aos referenciais de sua
escolha, sem se preocupar com qualquer outro referencial teórico ou prático. Na
verdade, muitas vezes essa postura leva a uma hostilidade e rivalidade com
outros referenciais, como se apenas uma abordagem pudesse ser válida ou
verdadeira. A segunda postura é a eclética,
em que o profissional adota uma posição contrária, sem se identificar com
nenhuma abordagem específica, utilizando de vários referenciais distintos a
depender de sua intuição pessoal, da demanda do cliente ou da conveniência da
situação. Trata-se de uma posição fundamentalmente pragmática, ou seja, baseada
na concepção de que é válido o que funciona. Se a primeira postura se
identifica com uma verdade única, a segunda abre mão de qualquer verdade ou
rigor. Ambas são estratégias diferentes de lidar com a angústia de ter de
responder individualmente aos impasses e incertezas do campo psicológico. Uma
postura mais madura é aquela que assume a complexidade do campo e toma uma
posição propriamente crítica, ou
seja, que considera legitimamente as contradições e limites das teorias e
práticas, tomando para si a tarefa de construir uma resposta singular às
demandas da situação. Nessa postura, o profissional tem uma maior
responsabilidade, pois seus instrumentos e referenciais precisam passar por uma
apropriação pessoal para que se possa de fato criar estratégias de pensamento e
intervenção.
Como se pode perceber, uma postura crítica e fruto de uma posição ética
fundamental: o reconhecimento que as verdades não estão dadas e acabadas, mas
que precisam ser construídas, conquistadas e defendidas com responsabilidade.
Portanto, a formação do psicólogo exige que o profissional seja, sobretudo, um
sujeito “responsável”. Mas a responsabilidade aqui não é apenas a obediência ou
referência a um código de conduta profissional ou a preceitos morais sociais,
mas ao próprio fundamento ético de todo ato humano.
Na mitologia grega, a história do centauro Quíron é uma ilustração das
habilidades de cuidado e de cura. Sua capacidade terapêutica estava intimamente
relacionada ao seu desamparo. Este se configurava pelo seu abandono de origem e
pelo fato de ele próprio ser portador de um ferimento incurável causado por uma
flecha envenenada. Era essa ferida aberta, produzindo um sofrimento constante,
que lhe dava tão especial sensibilidade e conhecimento ao lidar com a dor do
outro. Ou seja, para curar é preciso entrar em contato com sua própria dor.
A história da psicologia nos ensina que o campo psicológico é um lugar de
certezas parciais, tal como a própria condição de nossa subjetividade. Somente
com o reconhecimento da fragilidade de nossos instrumentos e da diversidade de
nossos olhares é que podemos responder autenticamente à delicada tarefa de
cuidar do sofrimento humano.
Bibliografia
FIGUEIREDO, L.
C. Revisitando as psicologias: da
epistemologia à ética das práticas e discursos psicológicos. Ed. rev. amp.
São Paulo: Educ; Petrópolis, Vozes, 1996.
FIGUEIREDO, L.
C. M.; SANTI, P. L. R. Psicologia: uma
(nova) introdução. 2. ed. São Paulo: EDUC, 2003.
JACÓ-VILELA, Ana
Maria; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; PORTUGAL, Francisco Teixeira. História da psicologia: rumos e percursos.
2. ed. rev. amp. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2007.
JAPIASSU, H. Introdução à epistemologia da psicologia.
5. ed. rev. amp. São Paulo: Letras e Letras, 1995.
SANTI, P. L. R. A construção do eu na Modernidade: uma
apresentação didática. 2. ed. Ribeirão Preto: Holos Editora, 1998.
_____________________________________
* Matéria publicada na Revista Psicologia da Editora Mythos, n. 3. O autor é Psicólogo, mestre e doutor em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP.
Professor assistente doutor do departamento de psicologia da UNESP Bauru. Site
pessoal: https://sites.google.com/site/ebcamposonline/.
Blog: http://interpretacoesdacultura.blogspot.com.br/
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
O Filho do Freud
Faz tempo que não posto nada, mas esse sujeito merece ser parabenizado pelas suas ótimas tirinhas sobre o suposto Filho do Freud. Meus parabéns, Pacha Urbano, vou deixar seu link no nosso blog! Grato pela simpatia e pela colaboração no evento de Psicanálise da UNESP.
Tumblr: filhodofreud.tumblr.com
Site: www.pachaurbano.com
domingo, 11 de março de 2012
Filosofia contra o Sistema
A Filosofia e o Pensamento de Esquerda: ainda atual!
Saiu recentemente um número especial da Revista Cult sobre os grandes pensadores à esquerda da Filosofia. Está imperdível! Uma ótima ilustração de como o pensamento crítico ainda está atual e presente. Afinal, depois de duas décadas de globalização e neo-liberalismo, muitos atestaram o fim da história e a morte da esquerda, como se o pensamento crítico tivesse morrido com o comunismo e fosse um anacronismo que só se mantem na atrasada América Latina!
Além das matérias concisas e precisas apresentando os autores clássicos, também tem uma ótima entrevista com Zygmunt Bauman, consagradíssimo autor que discute os desdobramentos da pós-modernidade, ou, como ele prefere, da modernidade líquida. Recomendo a todos conhecerem o trabalho desse autor, que sofreu um ataque ao seu prestígio em um controverso episódio envolvendo a London School of Economics e o filho do Kadafi. Enfim, intrigas da situação... Minha birra com ele é outra: escreve demais e se repete muito! Mas vale à pena ler pelo menos os seus livros sobre Identidade e Cultura, além de um dos que versam propriamente sobre os "tempos líquidos".
Só senti falta do Slavoj Zizek... Bem, mas fica para outra. Boa leitura!
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Obras de Freud 2011: Companhia das Letras 3 x Imago 0
Não Bastasse a Goleada em 2011, os boatos são que a Imago tirou seu time de tradutores das Novas Obras de Freud de campo...

Essa postagem chega bem atrasada, pois o assunto ainda é referente do ano passado, mas o assunto é sério e merece ser destacado.
Em 2011 a Companhia das Letras manteve o ritmo de seu cronograma e lançou mais três volumes do seu projeto editorial das obras completas de Freud. A novidade no mercado editorial brasileiro veio em 2010, quando saíram os três primeiros volumes desse projeto, fazendo com que a Companhia das Letras saísse na frente na enxurrada de lançamentos que se seguiria a entrada da obra de Freud em domínio público. Quando houve o lançamento eu fiz um texto neste blog comentando o Duelo de Titãs que se anunciava.
Pois bem, bastou um ano para a situação se definir de um jeito dramático. A tradução de Paulo César Sousa vem se consolidando cada vez mais. Como já havia comentado anteriormente, a edição da Companhia das Letras é um primor de cuidado. Não digo só pelo trabalho do tradutor, que é extremamente competente e conseguiu resgatar toda a riqueza da escrita freudiana, mas pelo projeto gráfico e pela qualidade da impressão e encadernação. Paulo César Souza é um trator competente do alemão que teve o impeto de sustentar uma tradução mais literária do texto freudiano, contra todos os sectarismos e purismos dos jargões e escolas psicanalíticas. Afinal, depois de pelo menos 40 anos de discussões sobre a hermenêutica da psicanálise, o real sentido da letra freudiana e o furacão lacaniano, é preciso muita coragem para afirmar o uso de instinto e repressão como opções mais adequadas para conceitos fundamentais da psicanálise. Tenho me deleitado com cada volume e com o frescor que esse projeto trouxe para a situação das obras de Freud no Brasil.
Esperava, naquela época, que o lançamento da Companhia das Letras viesse reacender o ímpeto da Imago em continuar tocando seu próprio projeto de tradução. Afinal, eram duas propostas completamente distintas de tradução e de projeto editorial, com finalidades distintas. O Projeto de Luiz Hanns era fazer uma Edição de Estudos, tal como existe na própria Alemanha. Era uma organização temática, com extremo rigor na tradução e nos comentários editoriais. Não era um texto para se ler descompromissadamente, era preciso atenção. Afinal, além das copiosas notas de tradução e das notas da Edição Standard Inglesa originais, tinha uma série de novas notas técnicas. As notas eram tão extensas - tem dez por página fácil - que precisaram ser realocadas no final. Foi um trabalho primoroso da equipe de tradução, embora o cuidado da editora não foi o mesmo: impressão de má qualidade, erros tipográficos e erratas. Era um material de grande valia para os estudantes da obra de Freud. Então podemos dizer que eram projetos que viriam se complementar muito bem e ambos eram muito bem-vindos.
Pois bem 2010 se foi, passamos 2011 e a Imago continua completamente silenciosa sobre o destino de seus projetos editoriais de Freud. Outras traduções começaram a aparecer. Saiu a de bolso pela LP&M e agora, em 2012, acabou de sair o primeiro número da tradução de Marilene Carone pela Cosac e Naif. Para quem não sabe a Marilene Carone, tal como o Paulo César Souza o fez depois, traduziu as obras de Freud com o apoio da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Ela foi consultada pela Imago para assumir o projeto de tradução das Obras Completas, mas a coisa nunca decolou. Até foram publicadas algumas traduções avulsas dela na forma de brochura, o que mais confundiu do que ajudou, já que ficamos com esses textos "novos" enxertados no meio dos antigos.
Em suma, os livros da Imago viraram uma babel. Já não bastasse a reimpressão da versão de 1974 em novas diagramações, perdendo a correspondência de páginas, começaram a sair essas brochuras e edições avulsas, com novas traduções ou retraduções, sem uma linha editorial coesa. Algumas traduções ficaram muito boas, por sinal. A de Osmyr Gabbi Jr. do projeto de 1895 é ainda preciosa para mim, por exemplo. Mas aí tinha a de Osmyr, a da Marilene, etc. Agora temos os três números de Luiz Hanns que, pelo que tudo indica, serão os únicos a serem lançados.
Alguns livreiros conhecidos confirmaram o que todo mundo suspeitava: a Imago não só deixou de produzir a Edição Standard Brasileira em capa dura - agora teremos só em brochura mais barata, para venda para estudantes e bibliotecas - como a nova edição não sairá mais. O motivo alegado é que agora já tem várias edições de Freud no mercado e que devemos esperar da Companhia das Letras a responsabilidade pelo lançamento das obras de Freud traduzidas direto do alemão. O que se pode entender disso é que uma vez perdida a exclusividade dos direitos autorais não é mais financeiramente viável manter o projeto de nova tradução. Ora, por que a Companhia das Letras insiste, então? Não seria porque ela entende que a qualidade do seu projeto fará diferença? Por que agora a Cosac e Naif insiste em um projeto próprio? Agora, como que uma editora que teve as obras de Freud nas mãos por mais de 30 anos não conseguiu engatilhar um projeto decente? Como não acredita na sua própria credibilidade?
É triste, muito triste... Tem algo muito errado com o mercado editorial brasileiro, principalmente com o mercado editorial de psicanálise. Eu não sei o que acontece no caso específico da Imago. Só consigo pensar que ela está falindo por pura ingerência e incompetência. É triste que uma editora que foi pioneira na publicação da psicanálise do Brasil chegue a um ocaso desses... O fato é que quem quer que seja o responsável nos deve satisfações.
De qualquer forma, parece que a mudança nesse caso é para o nosso bem. Quem sabe com a saída da Imago de campo esse vácuo não é ocupado de vez por editoras mais competentes, não? Esperemos que sim. Mas a pergunta que não quer calar é: onde andará o Luiz Hanns?

Essa postagem chega bem atrasada, pois o assunto ainda é referente do ano passado, mas o assunto é sério e merece ser destacado.Em 2011 a Companhia das Letras manteve o ritmo de seu cronograma e lançou mais três volumes do seu projeto editorial das obras completas de Freud. A novidade no mercado editorial brasileiro veio em 2010, quando saíram os três primeiros volumes desse projeto, fazendo com que a Companhia das Letras saísse na frente na enxurrada de lançamentos que se seguiria a entrada da obra de Freud em domínio público. Quando houve o lançamento eu fiz um texto neste blog comentando o Duelo de Titãs que se anunciava.
Pois bem, bastou um ano para a situação se definir de um jeito dramático. A tradução de Paulo César Sousa vem se consolidando cada vez mais. Como já havia comentado anteriormente, a edição da Companhia das Letras é um primor de cuidado. Não digo só pelo trabalho do tradutor, que é extremamente competente e conseguiu resgatar toda a riqueza da escrita freudiana, mas pelo projeto gráfico e pela qualidade da impressão e encadernação. Paulo César Souza é um trator competente do alemão que teve o impeto de sustentar uma tradução mais literária do texto freudiano, contra todos os sectarismos e purismos dos jargões e escolas psicanalíticas. Afinal, depois de pelo menos 40 anos de discussões sobre a hermenêutica da psicanálise, o real sentido da letra freudiana e o furacão lacaniano, é preciso muita coragem para afirmar o uso de instinto e repressão como opções mais adequadas para conceitos fundamentais da psicanálise. Tenho me deleitado com cada volume e com o frescor que esse projeto trouxe para a situação das obras de Freud no Brasil.
Esperava, naquela época, que o lançamento da Companhia das Letras viesse reacender o ímpeto da Imago em continuar tocando seu próprio projeto de tradução. Afinal, eram duas propostas completamente distintas de tradução e de projeto editorial, com finalidades distintas. O Projeto de Luiz Hanns era fazer uma Edição de Estudos, tal como existe na própria Alemanha. Era uma organização temática, com extremo rigor na tradução e nos comentários editoriais. Não era um texto para se ler descompromissadamente, era preciso atenção. Afinal, além das copiosas notas de tradução e das notas da Edição Standard Inglesa originais, tinha uma série de novas notas técnicas. As notas eram tão extensas - tem dez por página fácil - que precisaram ser realocadas no final. Foi um trabalho primoroso da equipe de tradução, embora o cuidado da editora não foi o mesmo: impressão de má qualidade, erros tipográficos e erratas. Era um material de grande valia para os estudantes da obra de Freud. Então podemos dizer que eram projetos que viriam se complementar muito bem e ambos eram muito bem-vindos.
Pois bem 2010 se foi, passamos 2011 e a Imago continua completamente silenciosa sobre o destino de seus projetos editoriais de Freud. Outras traduções começaram a aparecer. Saiu a de bolso pela LP&M e agora, em 2012, acabou de sair o primeiro número da tradução de Marilene Carone pela Cosac e Naif. Para quem não sabe a Marilene Carone, tal como o Paulo César Souza o fez depois, traduziu as obras de Freud com o apoio da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Ela foi consultada pela Imago para assumir o projeto de tradução das Obras Completas, mas a coisa nunca decolou. Até foram publicadas algumas traduções avulsas dela na forma de brochura, o que mais confundiu do que ajudou, já que ficamos com esses textos "novos" enxertados no meio dos antigos.
Em suma, os livros da Imago viraram uma babel. Já não bastasse a reimpressão da versão de 1974 em novas diagramações, perdendo a correspondência de páginas, começaram a sair essas brochuras e edições avulsas, com novas traduções ou retraduções, sem uma linha editorial coesa. Algumas traduções ficaram muito boas, por sinal. A de Osmyr Gabbi Jr. do projeto de 1895 é ainda preciosa para mim, por exemplo. Mas aí tinha a de Osmyr, a da Marilene, etc. Agora temos os três números de Luiz Hanns que, pelo que tudo indica, serão os únicos a serem lançados.
Alguns livreiros conhecidos confirmaram o que todo mundo suspeitava: a Imago não só deixou de produzir a Edição Standard Brasileira em capa dura - agora teremos só em brochura mais barata, para venda para estudantes e bibliotecas - como a nova edição não sairá mais. O motivo alegado é que agora já tem várias edições de Freud no mercado e que devemos esperar da Companhia das Letras a responsabilidade pelo lançamento das obras de Freud traduzidas direto do alemão. O que se pode entender disso é que uma vez perdida a exclusividade dos direitos autorais não é mais financeiramente viável manter o projeto de nova tradução. Ora, por que a Companhia das Letras insiste, então? Não seria porque ela entende que a qualidade do seu projeto fará diferença? Por que agora a Cosac e Naif insiste em um projeto próprio? Agora, como que uma editora que teve as obras de Freud nas mãos por mais de 30 anos não conseguiu engatilhar um projeto decente? Como não acredita na sua própria credibilidade?
É triste, muito triste... Tem algo muito errado com o mercado editorial brasileiro, principalmente com o mercado editorial de psicanálise. Eu não sei o que acontece no caso específico da Imago. Só consigo pensar que ela está falindo por pura ingerência e incompetência. É triste que uma editora que foi pioneira na publicação da psicanálise do Brasil chegue a um ocaso desses... O fato é que quem quer que seja o responsável nos deve satisfações.
De qualquer forma, parece que a mudança nesse caso é para o nosso bem. Quem sabe com a saída da Imago de campo esse vácuo não é ocupado de vez por editoras mais competentes, não? Esperemos que sim. Mas a pergunta que não quer calar é: onde andará o Luiz Hanns?
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Freud Explica? (2012)
Caros leitores,
Um feliz ano novo para todos nós, com um toque de fantasias apocalípticas, pois a vida pós-moderna pode ser muito entediante...
Estou começando este ano relançando a questão que coloquei ano passado e pedindo a colaboração de vocês: estou buscando traçar a origem da expressão "Freud explica" na língua portuguesa e na cultura brasileira. Ainda não sai do lugar desde o último post... Qualquer colaboração ou indicação é bem vinda!
Um feliz ano novo para todos nós, com um toque de fantasias apocalípticas, pois a vida pós-moderna pode ser muito entediante...
Estou começando este ano relançando a questão que coloquei ano passado e pedindo a colaboração de vocês: estou buscando traçar a origem da expressão "Freud explica" na língua portuguesa e na cultura brasileira. Ainda não sai do lugar desde o último post... Qualquer colaboração ou indicação é bem vinda!
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Flash da Crise Estudantil da USP
Este blog anda um pouco parado... Dr. Silvério não tem tido tempo de aparecer no meio de muitos afazeres do ego comum. Fiquei completamente por fora dos acontecimentos em torno da crise estudantil da USP, fruto da distância e do marasmo da vida administrada de todos nós. Mas eis que deparei com a Transcrição da aula pública do Prof. Christian Dunker, do IPUSP, dada durante a ocupação do Vale do Anhangabau pelos estudantes. Um texto maravilhoso - crítico, instigante e convocativo - que nos faz pensar sobre os movimentos de ocupação do espaço urbano e sobre a concepção de justiça e de violência na vida pós-moderna. Além de tudo é um exemplo do que mais faz falta hoje em dia: engajamento. Grato ao Christian e a tantos outros que colaboraram e estão fazendo esse movimento. Obrigado por me acordarem do "sono dogmático"!
Segue o link:
http://15osp.org/2011/11/14/transcricao-da-aula-publica-do-prof-christian-dunker/#more-1169
Segue o link:
http://15osp.org/2011/11/14/transcricao-da-aula-publica-do-prof-christian-dunker/#more-1169
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